domingo, 24 de agosto de 2008

Nem tudo é branco nem tudo é preto



Na vida, "nem tudo é branco nem tudo é preto". Pessoalmente, defendo o respeito pela opinião de cada um, o que não significa que esteja de acordo com tudo o que seja expresso. Assim, penso que devemos ter uma abertura de pensamento para com outras culturas, não abdicando todavia duma análise livre examinista, rejeitando juízos apressados e simplistas.
Vem isto a propósito dum comentário relativamente à minha "tête de nègre" do passado dia 22, duma Senhora america (EUA). Os Estados Unidos da América têm a sua história, rica e pobre como todos nós, mas na qual espoliaram e dizimaram populações indias; a abolição da escravatura engendrou uma guerra civil; a população negra de origem africana, descente dos antigos escravos, não tinha direitos civicos, predominava a segregação racial nos transportes públicos, nas escolas... até há bem pouco tempo. (recorde-se Kennedy e Martin Luther King, ambos assassinados). Ainda hoje se ouve (desagradavelmente) na televisão um branco do Sul dizer que não vota em Obama simplesmente por ser ... negro e inferior. Ainda hoje existe a pena de morte em muitos Estados. Felizmente que muitos americanos não pensam assim ... mas isto são os Estados Unidos da América.

Por outro lado, na Europa Ocidental e concretamente em Portugal, aboliu-se a escravatura e a pena de morte na segunda metade do século XIX, o que não provocou nenhuma guerra civil. Em Portugal, no Brasil, Angola, Timor, Macau, Goa, etc. existem inúmeras familias euro-afro-asiáticas, há muitos séculos. Isto não siginifica que Portugal seja uma sociedade ideal. Também temos os nossos defeitos, como todos. Portanto, "nem tudo é branco nem tudo é preto".

A pega para os bules, denominada "tête de nègre" tem a sua origem no Magrebe (Norte de África - Marrocos), portanto não tem sentido apelidar-se de racista algo que vem da própria Àfrica, concebido pelos próprios africanos. Quando abordamos a incomensuravel arte africana ou euro-africana, nunca se levantou qualquer questão de racismo. Essa senhora americana deveria ler, entre milhares de tantos outros excelentes autores, os textos sobre a negritude de Léopold Senghor, Amilcar Cabal, Mandela ou Gandhi. Penso sincera e convictamente que nos devemos todos respeitar uns aos outros, independentemente das nossas culturas, nacionalidades, religiões, sexo, origens sociais ou étnicas, dentro dum espírito de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. A nossa abertura a outras culturas, viajando por esse mundo fora, leva-nos a ser cada vez mais cidadãos do Mundo, mais Humanistas, o que não nos impede de respeitar a nossa própria cultura e a sua "praxis".

6 comentários:

virgínia disse...

É um tema que também quero um dia desenvolver, porque faz parte de mim. Sinto muito orgulho em ser descendente de misturas de raças e poucos ou nenhum de nós o não serão. O artesanato é um meio, é a liberdade de expressão. É só querer ver, ouvir, sentir.
E se essa senhora (que representa milhares iguais) quisesse ir mais longe não ficaria chocada por ser uma negra na cozinha, mas sim uma mulher na cozinha!

Para mim, representa a força interior de uma mulher, seja escrava ou não.

Um grande abraço, e também eu aprecio muito o caminho e o que nele encontro :)

alice disse...

Continuo a olhar para as pegas da mesma forma, simplesmente como peças muito bonitas, a partir das quais não faço juízo nenhum relacionado com racismo.
Só alguém, nomeadamente vindo dos EUA, que vive numa sociedade que está pouco à vontade com as suas origens e exagera pelas atitudes politicamente correctas que roçam a descaracterização social e étnica, é que poderia tirar imediatamente uma conclusão negativa.

carla alexandra vendinha disse...

terá sido talvez por ingenuidade que fiz o comentário a que se refere. achei interessante o comentário da minha amiga e impulsivamente e por ter a página aberta achei interessante no momento partilhá-lo consigo pensando que seria recebido da mesma forma que o recebi; como um comentário, como um relato de uma perspectiva, de uma realidade. A senhora americana, tal como a referem, é negra, muito negra. Pouco conhecia do seu passado até ter participado num programa desenvolvido nos Estados Unidos em que através de um estudo do ADN se tenta chegar ás origens do individuo. foi assim que nos conhecemos - dado lhe ter sido comunicado que teria traços de uma etnia Guineense.
Se para alguns a imagem representa força interior para outros representa uma memória de opressão. e que se respeitem ambas as posições. Para mim, honestamente nao representa nada. É uma pega.
O meu comentário não teve qualquer intenção provocatória. Foi ingénuo, despido de intenção. E não voltarei por certo a cair no mesmo erro.

maman xuxudidi disse...

Bem haja pelo comentário. Não houve erro nenhum da tua parte. Exprimiste a opinião da tua amiga. Neste assunto da pega, não havia qualquer espécie de racismo nem juízos de valor. Os esclarecimentos são sempre úteis, pois é dialogando franca e honestamente que se evitam mal entendidos, contendas ou guerras. Viva o diálogo sereno entre as pessoas.

virgínia disse...

Carla, é assim que surgem conversas interessantes. Se estivessemos todas juntas sentadas à conversa nenhuma de nós deixaria de dar a sua opinião, pois não? Todos os pontos de vista são válidos. E como disse, ou tentei dizer, tanto pode representar a opressão dos escravos como da mulher - e garanto-te que me identifico com ambos. Ou, como tu dizes, pode não representar nada - aí, a artista é que sabe.
Espero que continuem a aparecer muitos comentários por aí que nos façam aprender mais e mais.

Viva a liberdade de expressão!

Anónimo disse...

Comentários e diálogos interessantes que reflectem a multiplicidade das referências culturais de cada um. Filou